Pela primeira vez na história, uma eleição não será disputada apenas por propostas, partidos ou ideologias. Ela será disputada pela capacidade de manipular a percepção da realidade em escala — por meio de inteligência artificial, redes sociais e estruturas organizadas de desinformação. E o ponto mais crítico é que a maioria das pessoas — eleitores, candidatos e até instituições — ainda não compreende o ambiente em que está operando.
Com o avanço da inteligência artificial, já é possível criar vídeos, áudios e imagens de realismo perturbador, capazes de colocar palavras na boca de qualquer pessoa e influenciar percepções de forma quase imperceptível. Não estamos mais diante de simples fake news. Estamos diante de um ambiente em que a própria verdade passou a ser objeto de disputa.
O eleitor entra nesse cenário como o elo mais vulnerável. Mediado por algoritmos que priorizam engajamento — e não veracidade —, ele consome conteúdos que reforçam suas crenças sem qualquer validação. A manipulação deixou de ser generalizada: tornou-se personalizada. Cada indivíduo recebe uma versão diferente da realidade. O risco não é apenas ser enganado — é ser conduzido sem perceber, tomando decisões com base em percepções deliberadamente distorcidas.
Para o candidato, o cenário é ainda mais hostil. Deepfakes, recortes fora de contexto e ataques coordenados com botsintegram o novo repertório de guerra eleitoral. Um único conteúdo falso, distribuído no momento certo, pode destruir uma reputação construída ao longo de anos — e a velocidade de propagação supera qualquer capacidade de resposta.
O maior risco, porém, não é a manipulação do eleitor ou o ataque ao candidato. É a erosão da confiança no próprio processo democrático. Quando a sociedade começa a duvidar da integridade das instituições e da legitimidade dos resultados, instala-se uma instabilidade estrutural. Organismos internacionais já tratam eleições como infraestrutura crítica, exposta a riscos cibernéticos e informacionais de alcance global.
Esse cenário exige uma mudança imediata de postura. Para candidatos, segurança digital passa a ser elemento central de estratégia. Para instituições, o processo eleitoral precisa ser tratado com monitoramento contínuo e resposta coordenada. Para a sociedade, a alfabetização digital torna-se mecanismo essencial de proteção. Todos precisam ter uma mudança de cultura, de discernimento e leitura real dos fatos, sob o risco de votar em alguém que não exista, produzido artificialmente para ganhar o voto.
A eleição não acontece mais apenas nas urnas. Ela acontece nos algoritmos, nas redes e, sobretudo, na percepção.
A pergunta já não é apenas em quem votar. É, antes disso: em que realidade você está acreditando?
Oscar Soares Martins é consultor e especialista em cybersegurança e em IA.








