Em outubro, o Brasil elege presidente, governadores, senadores e deputados. Serão provavelmente mais de 30 mil candidatos disputando atenção em um ambiente digital onde a mentira circula mais rápido que o desmentido. E pela primeira vez na história, qualquer um desses candidatos pode ser destruído por algo que nunca disse — com voz perfeita, rosto coerente e contexto absolutamente convincente.
Os deepfakes deixaram os laboratórios. Estão disponíveis comercialmente, com interfaces simples, acessíveis a qualquer pessoa com um computador. O número de deepfakes detectados globalmente cresceu 900% entre 2023 e 2024, segundo relatório da empresa de segurança Sumsub. Não é tendência emergente. É infraestrutura de manipulação já instalada.
O Brasil já tem cicatrizes. Nas eleições municipais de 2024, o TSE identificou o uso de vídeos sintéticos para simular declarações de candidatos. O que era experimento virou prática. O que era esporádico tende a se tornar sistemático em outubro. O manual já existe: às vésperas das eleições presidenciais eslovacas de 2024, um áudio falso simulando o candidato Michal Simecka discutindo compra de votos circulou amplamente. O conteúdo era mentira. O estrago, real — e irreversível antes de qualquer desmentido.
Essa é a lógica central do problema: a comunicação digital favorece a propagação inicial, não a correção posterior. Nem todos que viram a mentira verão o desmentido. A dúvida, por si só, já é suficiente para comprometer uma candidatura — especialmente nas últimas 72 horas antes da votação, quando não há tempo para reação alguma.
Para o eleitor, o desafio é quase impossível. Estudos do MIT mostram que seres humanos identificam corretamente um deepfake em apenas 50% dos casos — o mesmo desempenho de uma moeda jogada ao ar. Ver não é mais acreditar. Ouvir também não.
Para candidatos, o problema deixou de ser comunicação e passou a ser defesa. Campanhas que chegarem a outubro sem protocolo de resposta a deepfakes chegarão despreparadas para o campo de batalha real. Não se trata mais de evitar erros — mas de se proteger contra fatos que nunca existiram.
E para as instituições? O TSE regulamentou o uso de IA nas eleições de 2024. Mas a capacidade de fiscalização ainda está muito aquém da velocidade de produção e distribuição de conteúdos sintéticos. A União Europeia avança com o AI Act. O Brasil debate. Outubro não espera.
Mais de 155 milhões de brasileiros irão às urnas. A decisão de parte deles poderá ser influenciada por conteúdos que nunca existiram, produzidos por atores que jamais assinarão o que fizeram. Ignorar esse risco não é ingenuidade. É uma escolha — e suas consequências serão medidas nas urnas.
Oscar Soares Martins — consultor e especialista em cibersegurança e em IA








